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As colônias irlandesas do Capão do Leão e do Monte Bonito

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Em Monte Bonito, a Estação de Tratamento Sinnott, homenageando os imigrantes irlandeses

 "Uns ruivos que falam uma língua que ninguém entende"

 

Os irlandeses que desembarcaram no porto de Rio Grande entre 1851 e 1852 fugiam da Grande Fome, que assolou a Irlanda de 1845 a 1852, principalmente pela contaminação das plantações de batatas por uma doença fúngica que ano após ano arrasava as colheitas. Um terço da população dependia apenas das batatas para sobreviver. Cerca de um milhão de pessoas morreram nesse período e mais de um milhão de irlandeses emigraram.

Nossos antepassados estavam entre esses. Foram atraídos para a aventura de mudar-se para outro país pelo vice-cônsul brasileiro em Liverpool, almirante Grenfell, e, depois, por João Francisco Fróes, que o sucedeu. Ambos representavam interesses de empresários que buscavam lucro ao formar colônias de estrangeiros no Brasil. Na maioria, esses imigrantes viviam no sudeste da Irlanda, na baronia de Forth, Condado de Wexford, no sudeste do país. Muitos eram do condado de Cork, mais ao sul.

Em várias viagens, embarcaram em navios oceânicos no porto de Liverpool, na Inglaterra, com destino ao sul do Brasil. Uma das viagens foi feita pelo brigue Gypsey, que partiu no dia 19 de dezembro de 1851 e ancorou em Rio Grande em 7 de fevereiro de 1852, sob o comando do capitão George Williams. A barca Irene, de 187 toneladas, comandada pelo capitão Downward, fez mais de uma viagem trazendo colonos, uma delas partindo de Liverpool em dezembro de 1850 e ancorando em Rio Grande em 4 de fevereiro de 1851. Trazia oito passageiros ingleses e 31 colonos irlandeses.  Em outra travessia, a barca Irene entrou na barra de Rio Grande em 2 de setembro de 1851 - nosso antepassado Richard Lloyd Yates veio nessa viagem.

Imigrantes irlandeses também chegaram ao Rio Grande do Sul viajando no barco Dom Pedro. ​​​​​​​​​​​​​​​​​​Juntos, esses imigrantes, principalmente irlandeses, formavam um grande grupo, de número incerto de pessoas, destinadas a integrar as três colônias irlandesas  que se instalaram em Pelotas, na Serra dos Tapes: colônia Dom Pedro II, Monte Bonito e Nova Cambria, esta última de duração muito efêmera: em 1855, poucos anos depois de fundada, já não existia mais.

A viagem entre os dois continentes durava cerca de 50 dias. Muitos perderam familiares durante o trajeto. Alguns chegaram muito doentes. Contam os poucos relatos existentes que muitos dos colonos eram artífices – sapateiros, carpinteiros, alfaiates, funileiros – e que havia poucos agricultores entre eles. Mesmo assim, foram trabalhar na agricultura. Recebiam víveres, alguns equipamentos de trabalho para a lavoura e para a construção de moradias. Todas as dívidas eram anotadas para ressarcimento posterior. A aquisição da terra devia ser quitada num prazo de cinco ou seis anos. 

Um padre a quem confessar pecados

Os imigrantes tentavam manter em terra estrangeira os hábitos trazidos de seu país. Em carta a uma autoridade da igreja na Irlanda, em 1863, nosso antepassado Edward Monk (o pai de Mary, que casou com Richard Yates) relata que, vivendo no país já há 12 anos, os colonos não podem contar com a presença de um padre a quem confessar pecados, obter orientações e consolo religioso em seus corações. "Não conhecemos a linguagem suficientemente para nos confessarmos", escreveu Edward, referindo-se à lingua portuguesa dos padres locais.O consul britânico em Rio Grande, H. P. Vereker, também escreveu ao reverendo James Roche, de Wexford, contando que a jovem Mary Monk (filha de Edward), "casada com o inglês Richard Yates", sabendo que padre James Roche estava reunindo fundos para a construção de duas igrejas em seu condado de origem (Wexford), conseguiu coletar entre os colonos o valor de 4 libras e seis shilllings para ajudar na construção.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​ De fato, de acordo com informação do pesquisador Hilary Murphy, de Wexford, com o dinheiro coletado em terras estrangeiras, padre Jean Roche construiu a igreja Immaculate Conception , em Wexford.Há também registros de conflitos na colônia. A Associação Auxiliadora deixou consignada a "Relação de colonos vindos o barco Dom Pedro II, com os acima, que por se deixarem seduzir e quererem impor condições à diretoria, serão expulsos da Colônia Dom Pedro II, os quais serão transferidos para a colônia do sr. Campos: Patrick Rogers, Martin Law, Jasper Bird, Jose Pierce, Patrick O´Neil, João Sinnott, Edmund Sinnott, Pedro Connor e sua mulher, e Elizabeth Kelly".

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Igreja  Immaculate Conception,

em Wexford, Irlanda.

Historiador explica a localização da Colônia Dom Pedro II

O professor Joaquim Dias, historiador, do Capão do Leão, fez observações sobre o local onde se estabeleceu a Colônia Dom Pedro II e, especialmente, a fazenda do imigrante Richard Lloyd Yates. Como a colônia desapareceu, é difícil estabelecer sua exata localização. Diz o professor:

“A fazenda do Sr, Richard Lloyd Yates é situada no "Fragata, 4o. distrito de Pelotas". O Fragata que suponho referenciado na documentação de seu testamento seja a antiga localidade da Várzea do Fragata, que hoje corresponde ao noroeste do município de Capão do Leão abarcando as localidades atuais de Jardim América, Loteamento Zona Sul e Parque Fragata. Vou tentar me fazer esclarecer.

O Fragata é o segundo maior bairro de Pelotas e tem como principal e soberana via a Avenida Duque de Caxias que, no século XIX, não passava de uma estrada rural simplesmente denominada "Estrada do Fragata". Pois bem, em direção norte-sul, o Fragata começava (e aliás, começa até hoje) no Arroio Santa Bárbara. Havia uma ponte ali e posteriormente obras modernas transformam aquela passagem numa espécie de aterro-ponte. A estrada do Fragata seguia em direção a sudeste e terminava no Arroio Fragata. Passando-se o Arroio Fragata, englobado ainda como "Fragata", havia a "Várzea do Fragata" que apresentava terrenos sensivelmente mais baixos, por isso a denominação "várzea do". A dita Várzea do Fragata era atravessada por uma estrada que se estendia até o Arroio São Tomé. Depois do São Tomé, já se estava em Capão do Leão. 

Bem, porque acredito que a fazenda do Sr. Yates estava localizada na Várzea do Fragata. Justamente, é nesta região entre os arroios Fragata e São Tomé que se desenvolveu a Colônia Dom Pedro II, segundo pude apurar por narrativas e a descrição da colônia. Outro detalhe, o dito Fragata que começa a partir do Arroio Santa Bárbara pertenceu durante muito tempo à Família Souza Soares, pelo menos, por um bom pedaço do fim do século XIX e primeiras décadas do século XX. 

Capão do Leão pertencia a Pelotas nessa época, desde 1893, denominado "4o. distrito", até sua emancipação em 1982. Essa área da Várzea do Fragata fazia parte do 4o. distrito, isto é, Capão do Leão.”

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A colônia de Monte Bonito

 

 Outro grupo de irlandeses chegara em 1850 para formar a colônia de Monte Bonito, hoje 9º distrito de Pelotas, a 24 quilômetros do centro da cidade.  Essa colônia era um empreendimento privado, pertencente ao charqueador pelotense Thomas José de Campos. Grande proprietário de terras, Campos destinou a cada colono em Monte Bonito uma área de 100 braças de frente (uma braça correspondendo a 2,2 metros) e 400 braças de fundos, “para o estabelecimento de uma data de colônia, mais oito braças de mato na costa do arroio Pelotas, para usufruto tão somente do fundador da colônia”, como escreveu ele no “Regulamento da colônia”. Campos entregava aos colonos 160 réis diários por pessoa da família, bem como ferramentas e animais – uma vaca com cria, uma junta de bois ou cavalos para lavrar. O colono pagaria pela terra 800 mil réis no prazo de oito anos. 

 

Em correspondência ao presidente da Província, Pedro Ferreira de Oliveira, em 10 de dezembro de 1850, o dono da colônia relata: “Os irlandeses estão também residindo em seus ranchos feitos por eles; têm tapado parte de seus terrenos; são todos agricultores e satisfazem regularmente os trabalhos de sua arte; não são tão desenvolvidos como os alemães, são, porém, menos desenvoltos (sic). A todos tenho fornecido ferramentas e sementes de todos os farináceos que se produzem no país e alguns animais que lhes facilitem o trabalho e lhes deem rendimentos”. “Não tendo eles ainda um ano de residência, fizeram a primeira plantação que se acha ainda por colher e a de batatas foi abundante. Decorrendo este ano favorável como vai para toda sorte de cereais, nutro esperanças de animação para a colônia e sejam satisfeitas as de que me acho possuído”.

 O amargo insucesso

 

Apesar das boas expectativas dos colonos ao chegar, a colônia irlandesa Dom Pedro II não teve êxito. No ano seguinte à chegada, restavam apenas 30 famílias, ou cerca de 180 pessoas. Em 1859, havia 16 famílias, menos de 100 pessoas. Não há clareza sobre as razões do fracasso. Alguns registros falam em dificuldades de transporte da produção dos colonos até o centro consumidor. Por essas dificuldades econômicas, grande parte dos imigrantes debandou para Montevidéu, Buenos Aires e para outros estados do Brasil. Até o padre Patrick Donovan, que acompanhara os colonos, foi embora, levando paramentos religiosos e ferramentas agrícolas.

 

Num post do blog Pelotas Capital Cultural, de Francisco Antonio Vidal, o professor Mario Osório Magalhães publicou, como comentário,  em 2011,  uma antiga história que fala sobre a penúria em que viviam muitos dos irlandeses. É o depoimento de Michael George Mulhall, jornalista irlandês que visitou Pelotas em 1871: "Uma pequena carroça, dirigida por uma velha com um manto na cabeça, passou por nós vinda da cidade. Apontando para ela, o carroceiro nos informou: 'Essa mulher é uma conterrânea dos senhores'. Era a sra. Carpenter, uma das sobreviventes da colônia, abandonada nesta terra estranha há quinze anos. Por ser uma viúva com várias crianças pequenas, teria perecido de fome, se não fosse seu trabalho constante, sua confiança na Providência Divina e a bondosa ajuda de muitas damas brasileiras. Ainda é pobre, mas conseguiu criar uma respeitável família. Lá vai ela na sua carroça puxada a burros com o dinheiro da manteiga que vendeu na cidade!"

 

A colônia Dom Pedro II deixou poucas marcas em Pelotas, mas ainda existem na região descendentes dos pioneiros, com sobrenomes preservados: Yates, Stafford, Sinnott, Furlong, Monks, Carpenter. Em Monte Bonito, a Represa Sinnott marca a lembrança da presença dos imigrantes. Em Pelotas, na rua Sete de Setembro, existe uma tabacaria como nome Stafford. As dificuldades dos colonos - inclusive as de adaptação à nova terra - parecem estar representadas numa frase que o professor Joaquim Dias ouviu de uma senhora centenária, no interior do Capão do Leão. Ela se referiu aos irlandeses como "uns ruivos que falavam uma língua que ninguém entendia".

                                             

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